“Tudo é projeção. Sentimo-nos sempre atraídos por aquilo que reconhecemos em algum nível de nós mesmos. Não há mistério. Aquilo que somos é o mero reflexo de tudo aquilo que vemos. As experiências pessoais, as informações que nos chegam, a educação que nos dão, o contato com o grupo social, as leis sociais, as regras familiares, a tradição de gerações. Para descobrir a essência profunda de nós mesmos temos que desconstruir o padrão, quebrar o molde, nascer de novo. Como saber ao certo quem somos? Aquilo que odeio em você, é uma sombra oculta de algo que temo ou detesto em mim, aquilo que amo em você é meu ego refletido no espelho da sua imagem. No fundo tudo diz respeito a nós mesmos e à interpretação pessoal que damos às coisas. Copiar uma obra de arte, um poema, uma frase ou uma nota musical um pouco acima da escala, limita nosso poder criativo. Só posso ser eu quando a obsessão em ser algo aquém disso acabar. Só posso encontrar a mim mesmo, quando me afastar de você. Temos a mania de achar que somos menores, não confiamos em nosso talento, em nosso faro aguçado, em nossa direção. Precisamos da aprovação do mundo para nos sentirmos adequados e esquecemos que esta aprovação dependerá de meras convicções subjetivas de outro alguém que não pode julgar nada por nós. Nunca haverá garantias diante do certo ou do errado. O que define a virilidade de um homem não está limitado ao seu genético desenho anatômico, há muito mais coisas a exercitar. O que define a feminilidade de uma mulher não pode ser achado entre os seios, porque é algo interno, mais íntimo, uma percepção sensível do mundo que a rodeia lá fora. Homem ou mulher, feminino ou masculino, nada disso está preso às convenções limitantes da ciência ou da moral. Os dois sexos habitam nosso ser e pensamento determinando atitudes externas. O homem que há em mim reconhece a fragilidade da mulher que há em você; a mulher que há em mim reconhece a impotência do homem que há em você. Somos muito mais do que sexos determinados no dia do nascimento, e nossa androginia deveria ser prevista por lei. Um batom vermelho não me tornará exclusivamente mulher, da mesma forma que uma gravata negra não fará de você um homem inteiro. O vestuário sugerido nas revistas do mundo não definirá a totalidade da condição de ninguém. Sou mais do que vinte mulheres, sou mais do que vinte homens, há um exército multissexual marchando dentro de mim. Quando troquei meu laço de fita pelo seu chapéu preto me aproximei do seu universo, quando tirei a gravata fina e experimentei o vestido florido, o homem escondido em você se atraiu por mim. Somos tanto quanto ousamos, somos duas nações separadas por uma frágil e inútil fronteira. Julgamos as nossas diferenças negando possuí-las em nós. Resistimos à tentação de arriscar algo mais forte, algo que nos comprometa ou nos leve a perder. Condenamos a liberdade alheia por inveja recalcada. Torcemos o nariz diante de algo exclusivo, como uma personalidade mais livre dona absoluta daquilo que faz. E neste jogo de ele e ela o resultado final exposto em tela grande ao redor do estádio é sempre pior: quando o preconceito da maioria ganha, a humanidade inteira perde. Sou Isabelle, sou Maria, sou Alice, sou Carlos, sou Ana, sou Pablo, sou Ferdinand, Javier, Alejandro e Pepe. Sou mãe, amiga e amante de todos os personagens que moram em mim.”










